quinta-feira, outubro 30, 2003

Vila de Cão


Na segunda feira fui ver o Dogville. Após a agradável surpresa quanto aos aspectos técnicos do filme, no fim a desilusão ficou patente. Em dois sentidos possíveis da palavra.
Apesar de ter já visto o filme há uns dias, só agora escrevo sobre ele. Aliás, confesso que não gostei, mas nem consegui explicar porquê – o que só me intrigava ainda mais.
Finalmente acho que hoje cheguei a alguma (espécie de) conclusão. Aqui fica, em jeito de provocação, e pelo andar da carruagem, acho que vai durar para alguns posts! ;)


#1 - Fala por ti!

O filme constrói um paradigma em relação à espécie humana. Embora a acção se passe numa aldeia, a verdade é que, por diversas vezes, estão implícitas nos diálogos das personagens as generalizações a todos os ambientes sociais. Mais, é feito logo desde o início o paralelo da aldeia a uma família, a uma cidade, a qualquer núcleo social.

Primeiro ponto de partida do filme: Dogville somos todos.
Primeiro abuso do realizador: mas este tipo conhece-me de onde??!!

sexta-feira, outubro 24, 2003

Ainda não sabia ler


Ainda não sabia ler mas aprendeu, com as estrelas,
construiu uma via, correu atrás do tempo.
Contou da mãe, da comunhão, primeira, ia
todo de branco, mais tarde a mãe partiu, ia todo
de negro, coloriu a vida, o tempo era bom atleta,
percebeu ele. Agora já tinha perdido a memória e
o relógio, não importa nada além disso, Pede
um desejo, disse a si mesmo,
Quero um calendário vazio.

terça-feira, outubro 21, 2003

Galicia



Foto que tirei em La Coruña, Galiza do meu coração...

Sorriu de uma janela

Sorriu de uma janela. A seguir atirou-se de cabeça para a vida.
Toda a rua ficou tingida, vermelho com sorrisos dos outros.
A janela fechou-se. Uma estrela desenhou no céu um rasto de desejos.
Leva a vida com alegria, purifica-te na dor.
Toda a rua se abriu de novo. Do chão nasceu uma estrela.

domingo, outubro 19, 2003

Imagens que passais...

E está tudo a mudar tão depressa.
Novamente a sensação de ver as coisas mudarem entre mim, eu mudando por vezes com elas, elas por fora de mim.
“Imagens que passais pla retina, porque não vos fixais...” (Camilo Pessanha)
Como a paisagem que vou vendo nas minhas agora frequentes viagens, uma andamento louco de que tenho vontade por vezes de
parar
saborear
ficar.
Apenas isso.

Silêncio

“E é por essa razão que ela fala, porque as palavras que debita fazem o tempo mexer-se discretamente, ao passo que quando tem a boca fechada o tempo imobiliza-se, como uma espécie de enorme e pesada escuridão que mete medo.”

Milan Kundera, “A Identidade”.

A migração das aves

Vejo amigos a partir. Ainda bem. Vejo-os em busca de sonhos, possibilidades, infinito...
O que só me alimenta no meu sonho, no torná-lo real no mais curto espaço de tempo possível. “Because we all have wings, but some of us don’t know how”.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Simple pleasures

Manhã de névoa.
Ouvir Manu Chao ao vivo, mochila às costas para Coimbra e regresso à vida de estudante...

Life's good... ;)


segunda-feira, outubro 06, 2003

Fé? :)



Para mais inquietações, por favor dirija-se a Too Much Coffee Man! ;)

quarta-feira, outubro 01, 2003

Dia Mundial da Música

Hoje é Dia Mundial da Música.
Aqui fica um dos seus mestres: Satchmo!!!!!


As Aventuras da Liberdade

"As pessoas de quem gostara e de quem não gostara vinham-lhe à lembranças: os pais, Mussango, Kafuxi, Imba, Nossa Luta, Mavinga, Chivuala, União. Bons ou maus, todos tinham uma coisa boa: recusavam ser escravos, não aceitavam o patrão colonialista. Não eram como os G.E. ou o cozinheiro da PIDE. Eram pessoas; os outros eram animais domésticos."



"As Aventuras de Ngunga",
Pepetela

terça-feira, setembro 30, 2003

- Vês? Eu podia escrever sobre isto, sobre esta rapariga que agora passa...
Detalhes, pequenos retratos.
Escrever.
Sobre a chuva, as primeiras gotas que caem agora.
A chuva. Que pousa em mim e com ela a calma.
Outono. Saudades do Verão e do tempo dos amigos.
Vejo os do Inverno, da presença serena.
Tenho saudades do Verão, dos dias que esticam amizades, como se na urgência do momento o tempo nos fosse passado e futuro.
Ao contrário de Rimbaud, “with us able to seize this eternity on the spot”. Até ao infinito…
E era só da chuva que eu queria escrever. Como da rapariga que ia ontem no comboio, como, talvez, de um pretexto apenas para as sensações.
Folhas do Verão que em mim caem.

segunda-feira, setembro 29, 2003

An Irish Air...

Um dos meus poetas favoritos, poema idem.
A imobilidade, a ausência, o estar sem sentir.
E no entanto, o solitário impulso do prazer que eleva o corpo às nuvens.
Sublime.
Para ler e ficar a pensar. O dia inteiro. Nas nuvens, também.
E o céu aqui tão perto...

An Irish Airman Foresees his Death


I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

William B. Yeats

segunda-feira, setembro 22, 2003

A Primeira Vez

Como se fosse o primeiro dia.
Já quase tinha esquecido - o espaço fechado, a oclusão. Física, também.

Espaço de mãos abertas e deuses caídos, ou deuses erguidos na esperança de uma fuga. Que prometo. Juro e anseio, a volta pacífica ao mundo meu.

Moinho de mim na catarse diária, o corpo calçado, a alma fria em silêncio.

(Como se fosse a primeira vez.)